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Filosofando até com o carnaval?!?

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6 de fevereiro de 2026
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Lúcia Helena Galvão*

O carnaval que se aproxima carrega uma longa história, da qual muitos já conhecem ao menos alguns elementos. No Brasil, essa festividade chega a partir de Portugal com o chamado Entrudo, uma brincadeira popular marcada por certa desordem: pessoas arremessavam água, laranjas e outros objetos umas nas outras nas ruas. Ao longo do período colonial e imperial, essa prática foi se transformando, misturando-se às influências africanas e dando origem aos ritmos brasileiros, ao hábito de tocar instrumentos nas ruas — como o Zé Pereira —, às marchinhas de carnaval com Chiquinha Gonzaga, ao samba e, mais tarde, às escolas de samba.

Do ponto de vista etimológico, costuma-se associar a palavra carnaval ao latim carnivale, interpretado como “adeus à carne”, em referência ao período da Quaresma, que se inicia logo depois e impõe restrições, inclusive alimentares. Ainda que essa etimologia seja discutida, ela abre espaço para uma reflexão mais profunda: a “carne” não diz respeito apenas ao alimento, mas aos prazeres carnais em geral, que encontram nesse período um tempo de liberação e catarse antes da contenção quaresmal.

Entretanto, as origens simbólicas do carnaval parecem ser mais antigas. Em diversas civilizações, sempre houve festividades ligadas ao encerramento de um ciclo e ao início de outro, especialmente associadas à fertilidade da natureza e à chegada da primavera. Após o inverno — tempo de sombras, recolhimento e proximidade simbólica com a morte — celebrava-se a vida que retornava.

No Egito Antigo, por exemplo, havia cortejos sagrados ligados à natureza e ao renascimento. No templo de Hórus, realizava-se o chamado casamento sagrado com Hathor, a Grande Mãe, simbolizando a harmonia entre o homem digno e a natureza viva. Não havia ali desordem ou grotesco, mas consagração e reverência à vida.

Já na tradição greco-romana surgem elementos mais próximos do carnaval atual. As festas dionisíacas, celebradas na Grécia e depois em Roma como bacanais e saturnálias, envolviam embriaguez, inversão da ordem social, máscaras e ruptura das normas. O objetivo simbólico era permitir que o homem fosse “possuído pelo deus”, trazendo à tona algo que transcendesse a vida comum. Contudo, quando não há caminhos para que o elemento espiritual se manifeste, essa ruptura tende a liberar apenas a animalidade reprimida.

É nesse contexto que surge a ideia de catarse: uma liberação controlada das tensões psíquicas e instintivas, para evitar que elas transbordem de forma destrutiva ao longo do ciclo social. Na medicina, o termo “catártico” refere-se à purificação do corpo; no carnaval, essa purificação seria simbólica, ligada à psique humana.

Mas surge uma pergunta fundamental: é realmente necessário gerar impurezas para depois purificá-las? Ou seria possível uma moral que não apenas reprima, mas transmute os instintos? Essa reflexão aparece com força nos festivais medievais, nos quais a máscara grotesca ridicularizava o cotidiano “normal”, denunciando sua hipocrisia. O carnaval, nesse sentido, expunha que a moral comum muitas vezes apenas esconde a bestialidade, sem transformá-la.

Como numa videira bem cuidada, a poda dos ramos inferiores permite que a seiva produza frutos melhores. A moral verdadeira não reprime por medo, mas orienta a energia vital para algo mais elevado. Quando isso não acontece, cria-se apenas uma aparência de virtude — uma máscara — que o carnaval faz questão de satirizar.

Celebrar o carnaval não é, portanto, um problema em si. A alegria, a festa e a celebração da vida são profundamente humanas. O convite que essa tradição nos faz é mais sutil: refletir se nossas regras nos tornam realmente mais humanos ou apenas mais domesticados; se usamos máscaras por consciência ou por hipocrisia. Talvez o verdadeiro sentido do carnaval esteja em nos ajudar a retirar essas máscaras — não só por alguns dias, mas também no tempo comum da vida.

 

 

*Lúcia Helena Galvão é professora voluntária da Nova Acrópole há 38 anos.

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