Os estudos analisam os conteúdos verificados pela agência de checagem Lupa entre 2015 e 2023 e identificam padrões de disseminação das informações falsas, além de sua relação com disputas políticas, especialmente aquelas envolvendo a extrema direita brasileira.
Os resultados sobre a circulação de desinformação contra os povos indígenas no Brasil foram publicados em duas em revistas científicas internacionais pelo professor Dr. Allysson Martins, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). As pesquisas foram financiadas pelo CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, maior órgão brasileiro de fomento à ciência.
O primeiro artigo, Origin and format of disinformation against Brazilian indigenous peoples, enfatiza de onde partem e em que formatos midiáticos circulam essas desordens informacionais. Já o segundo, Politicization of lies about the indigenous peoples in Brazil, identifica um uso político dessas narrativas falsas sobre os povos originários, sobretudo em questões de territórios, identidade e saúde.
O levantamento identificou uma mudança na atenção dedicada ao tema pela agência Lupa. Quase 40% das checagens foram publicadas em 2023, número superior ao registrado em cada um dos três anos anteriores. O período coincidiu com o início do terceiro mandato de Lula, a criação do Ministério dos Povos Indígenas e o aumento da visibilidade pública da crise humanitária Yanomami.
Mentiras sobre indígenas são mobilizadas em disputas políticas
O segundo artigo, publicado na revista Popular Communication, aprofunda a dimensão política desse fenômeno. Das checagens examinadas, 81% envolviam questões ideológicas. Entre os temas identificados estavam território, saúde, cultura, criminalidade, lideranças indígenas, violência e mortes.
A politização apareceu de forma direta em quase 80% dos conteúdos. Entre os casos diretamente associados a disputas políticas, 67% do total analisado favoreciam a extrema direita, enquanto 11% estavam associados a grupos de esquerda. Os conteúdos falsos trazia também ataques a figuras políticas do campo adversário, como Sônia Guajajara, a primeira ministra dos Povos Indígenas, além de lideranças indígenas, como o cacique Raoni, ambos apoiadores do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Os resultados apontam uma incontestável concentração de conteúdos que beneficiavam a extrema direita, mesmo que não necessariamente todas as informações falsas indicassem motivação partidária”, explica o coordenador do estudo, Dr. Allysson Martins.
A pesquisa relaciona esse cenário à ascensão política da extrema direita, especialmente durante a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, em 2018, e aos conflitos políticos em torno das políticas indigenistas, da demarcação de terras e dos direitos dos povos originários.
Entre os exemplos estão os conteúdos que tentavam atribuir nacionalidade venezuelana aos Yanomami atingidos pela crise humanitária em Roraima, retirando o foco das responsabilidades relacionadas à gestão de Jair Bolsonaro. Além de vídeos de manifestações indígenas retirados de contexto para sugerir apoio a Bolsonaro ou oposição à vitória eleitoral de Lula em 2022.
As terras indígenas também figuram entre os principais assuntos explorados. O estudo identificou 30% de conteúdos relacionados diretamente a reservas, territórios e demarcações. Em muitos desses casos, as informações falsas estavam associadas a disputas ideológicas, acusações de ilegalidades e narrativas sobre conflitos territoriais. Já os conteúdos relacionados à cultura indígena incluíam questionamentos e ridicularizações dos modos de vida, do uso de tecnologias e da própria identidade desses povos.
Redes sociais concentram a circulação de desinformação
No estudo publicado na revista Ámbitos, o pesquisador identificou que 89% das mentiras tinham origem em redes sociais. O Facebook concentrou 72% do total, enquanto o WhatsApp serviu como origem de 17% dos conteúdos falsos. Com números ínfimos, aparecem ainda a imprensa e o Congresso Nacional.
A análise também identificou diferenças nos formatos de circulação. O texto esteve presente 89%, enquanto o vídeo apareceu em 56%, sozinho ou combinado com outros recursos. No Facebook, praticamente todos os conteúdos incluíam texto. Já no WhatsApp, é preciso atenção para os vídeos, por causa da predominância desse formato na disseminação de informações falsas pela plataforma.
Os resultados mostram que a desinformação contra os povos indígenas circula principalmente em ambientes digitais e pode combinar textos, imagens e vídeos para apresentar conteúdos falsos ou retirar informações de seu contexto original.
Contexto das pesquisas
As duas pesquisas têm como base o trabalho de verificação da Lupa e, portanto, seus números se referem ao conjunto de conteúdos analisados pela agência, não à totalidade da desinformação contra os povos indígenas no país. Ainda assim, os estudos identificam padrões comuns: a centralidade das redes sociais, a predominância de textos e vídeos e a associação recorrente entre narrativas falsas, disputas ideológicas e conflitos em torno dos direitos indígenas.
Allysson Viana Martins é professor dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) e em Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (PGDRA) na UNIR, onde coordena o Laboratório de Mídias Digitais e Internet (MíDI). É autor de quase uma centena de textos científicos, entre livros, capítulos, artigos e divulgação.
Em termos de formação, é Pós-Doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com estágio doutoral no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), em Paris, França. Jornalista pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Acesse os artigos científicos:













