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Morto por um copo de cerveja: o assassinato de um sargento de Rondônia que o Ceará quer esquecer

Júlio Olivar, jornalista e historiador

Aos 23 anos, Herbert Douglas Oliveira Silva tinha tudo o que um jovem do interior costuma sonhar: disciplina, trabalho, uma casa própria, uma moto quitada com o soldo de sargento do Exército e o gosto simples por um futebol no fim da tarde.

Nascido e criado às margens do rio Mamoré, em Guajará-Mirim, na fronteira do Brasil com a Bolívia, a 366 km de Porto Velho, Herbert era daqueles que não dão trabalho. Entrou no Exército há cinco anos. Juntou dinheiro. Realizou. Faltava um último desejo: conhecer a terra onde a avó materna nasceu. Iguatu, no interior do Ceará. Foi a primeira viagem longe de casa. Foi a última.

Herbert gostou tanto do Ceará que pediu desligamento do Exército. Ia ficar. “Ele estava morando comigo, queria estudar para o concurso da Polícia Militar e ficar por aqui”, conta a tia, Eliane de Melo.

No dia 7 de setembro, festa do Rotary Club de Iguatu. Herbert tomava cerveja. Levantou da mesa por alguns minutos. Quando voltou, confundiu as mesas. Tomou um gole do copo ao lado.

Um copo de cerveja. Foi a sentença de morte.

O que era para ser um mal-entendido de segundos virou um espancamento público. Seguranças contratados para garantir a segurança do evento – homens fardados, pagos para proteger – foram os primeiros a bater. Vídeos que circularam na internet, e aos quais tivemos acesso, mostram a cena com nitidez revoltante: Herbert, já rendido, no chão, cercado por vários homens. Socos. Chutes. Golpes de cadeira. Ele desfalecido, e ainda apanhando.

Um dos seguranças chega a segurar o braço do colega para que ele pare. Não parou.

Ao redor, a festa continua. Gente dançando. Ninguém intervém. Ninguém grita. Um jovem de 23 anos é morto na pista de dança, sob luzes e música.

A violência foi tão brutal que o laudo médico parece um relatório de guerra. Herbert teve hemorragia encefálica traumática, luxação atlanto-occipital – a decapitação interna, quando o crânio se descola da coluna -, asfixia constritiva das vias aéreas, sinais de estrangulamento e traumatismo múltiplo na face e no crânio.

Três agressores, de 21, 25 e 28 anos, foram presos. Hoje respondem em liberdade, aguardando julgamento.

O Rotary Club, promotor da festa, lavou as mãos. Em nota oficial, definiu a barbárie assim: “Após uma confusão envolvendo algumas pessoas nas dependências, um homem ficou ferido, foi socorrido e encaminhado ao Hospital Regional de Iguatu, onde, infelizmente, veio a óbito logo em seguida.”

Ferido. Confusão. Como se fosse uma queda.

Família pede justiça. O caixão de Herbert cruzou o país. Saiu do Ceará e chegou a Porto Velho recebido no aeroporto com honras militares por representantes do Exército Brasileiro. Deixou pai, mãe e um casal de irmãos.

A família constituiu advogada. “O relatório da Polícia Civil do Ceará atenua o caso, como se tivesse havido apenas resistência da vítima para deixar o local, o que não condiz com as imagens”, afirma Márcia Teixeira.

Os vídeos clamam por justiça na internet. Mas justiça não é clamor. É processo. É responsabilização de quem bateu, de quem mandou bater, de quem viu bater e continuou dançando.

Herbert Douglas não morreu por causa de um copo de cerveja. Ele morreu porque numa festa de gente dita de bem, a vida de um jovem rondoniense, de origem humilde, valeu menos que um copo de cerveja. E isso, Iguatu e o Brasil precisam explicar.

Fonte: folhadosulonline

Autor:Júlio Olivar
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