Antes de um acordo, existe uma conversa. Antes de uma solução, existe alguém disposto a ouvir. E, muitas vezes, antes mesmo de se falar sobre o processo, é preciso criar espaço para que as pessoas consigam falar sobre aquilo que realmente as trouxe até ali.
É nesse lugar que atuam conciliadores, conciliadoras, mediadores e mediadoras do Poder Judiciário: como facilitadores do diálogo e agentes de pacificação social. Nesta quarta-feira (23), o Tribunal de Justiça de Rondônia (TJRO) se une à mobilização do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em homenagem a esses profissionais, cuja atuação é fundamental para a construção de soluções consensuais e para o fortalecimento da cultura do diálogo.
A iniciativa decorre de proposta em tramitação no CNJ para instituir oficialmente o Dia Nacional em Homenagem ao Conciliador e ao Mediador, a ser celebrado anualmente em 23 de setembro. A mobilização busca reconhecer quem, diariamente, ajuda pessoas a transformar conflitos em possibilidades de entendimento.

Quando ouvir muda o rumo de uma história
Para o conciliador Carlos Magno, depois de duas décadas de atuação, a percepção sobre seu trabalho mudou. “No começo eu achava que meu trabalho era fazer acordo. Hoje eu entendo que meu trabalho é restabelecer o diálogo”, conta.
Ele lembra de situações em que pessoas chegaram à sala de conciliação sem sequer conseguirem se olhar e saíram conversando. Em uma delas, um casal idoso que estava se divorciando discutia a partilha de um terreno onde havia plantado a primeira árvore juntos, décadas antes. Ao serem convidados a falar sobre o significado daquele bem, a discussão tomou outro caminho.
“O senhor disse que não queria o terreno, queria que ela não achasse que aqueles 40 anos foram em vão. Ali acabou a discussão do terreno”, relata Carlos. Para ele, a experiência reforçou uma compreensão que acompanha sua trajetória: “A gente quase nunca briga pelo que está no processo. A gente briga pelo que não foi dito. O diálogo é o que realmente resolve.”
A conciliadora Verônica Nery também destaca a transformação que pode acontecer durante uma sessão. Para ela, a maior recompensa é perceber quando as pessoas deixam de enxergar umas às outras apenas como adversárias e conseguem reconhecer necessidades, sentimentos e interesses que estavam escondidos por trás do conflito.
“É testemunhar a mudança no ambiente da sessão e a ressignificação que as partes conseguem dar ao problema”, explica.

Quando o conflito dá lugar a novas possibilidades
Essa escuta também está no centro da atuação da conciliadora Ruilana Faria Queiroz, que destaca a importância de ajudar as partes a construir uma nova perspectiva, especialmente nos conflitos familiares que envolvem crianças e adolescentes.
Uma experiência ficou marcada em sua trajetória: uma mãe que decidiu mudar de estado para morar próximo à residência do pai dos filhos, buscando favorecer a convivência entre eles.
“Vi claramente que o centro da questão era o bem-estar dos filhos e nenhum dos pais agiu com egoísmo próprio”, relata. Para Ruilana, o caso mostrou que o amor e a maturidade dos pais pelos filhos podem superar as questões que envolvem o fim da relação do casal.
Para a conciliadora Elaine Cavalcante, o trabalho também revela que o resultado de uma mediação não se resume à assinatura de um acordo. “É incrível acompanhar essa transformação”, afirma, ao lembrar que, muitas vezes, mesmo quando não há acordo, as partes conseguem retomar um diálogo baseado na fala e na escuta.
Ela conta que, certa vez, foi abordada por uma pessoa que havia participado de uma mediação em um conflito familiar. A pessoa relatou que, depois da experiência, passou a enxergar situações que antes não conseguia perceber e conseguiu se reaproximar da família, inclusive do pai, com quem não mantinha contato havia muito tempo.
“Fiquei emocionada”, conta Elaine.

Uma justiça construída com diálogo
A conciliadora Keila Riccat resume essa dimensão do trabalho ao falar sobre autonomia. Para ela, conciliar e mediar é acolher, reduzir os ruídos da comunicação e ajudar as partes a perceberem que elas próprias podem construir as melhores soluções para suas vidas.
Já para Carlos André, conciliador, a atuação reúne responsabilidade, compreensão do outro e realização pessoal. A satisfação, segundo ele, está no momento em que as próprias partes conseguem identificar e dissolver um conflito. Entre as experiências que marcaram sua trajetória, ele lembra de um caso entre pai e filho, em 2018, no qual o diálogo direto entre os dois permitiu a construção de um acordo que foi além do que estava inicialmente pedido no processo.
As histórias compartilhadas pelos conciliadores e mediadores revelam que os resultados desse trabalho nem sempre podem ser medidos apenas pelo número de acordos realizados. Muitas vezes, estão em um olhar que volta a acontecer, em uma conversa que finalmente é possível, na reconstrução de vínculos familiares ou simplesmente na possibilidade de seguir em frente.
A atuação está alinhada à Política Judiciária Nacional de Tratamento Adequado dos Conflitos de Interesses, instituída pela Resolução CNJ nº 125/2010, que reconhece a conciliação e a mediação como instrumentos de pacificação social e de efetivação do acesso à ordem jurídica justa.
Confira o vídeo institucional produzido pelo CNJ.
Assessoria de Comunicação Institucional













